Por
João do Valle
Adjunto Trino Otalevo
joao.valle@uol.com.br
Formamos uma fila que ia da porta do Templo até depois da Casa Grande. Doutrinadores e Aparás, frente a frente, com rosas nas mãos. Ao lado direito da entrada do Templo, uma placa comemorativa sendo inaugurada. Tia incorporou a Rainha de Sabá e trocou as rosas com Mário Sassi. Fizemos o mesmo. Acabou o trabalho.
Foi tão rápido. A lembrança trintenária não recupera muito mais do que isso. Sei que foi no Dia das Rosas mais antigo do qual me recordo. 1976, talvez 1978, não tenho a certeza.
Tia já partiu há 23 anos. Não, não parece que foi ontem. Não passou rápido. Aliás, cada vez parece que passa mais devagar. Ainda sinto a sua falta e, na verdade, sinto mais e mais, a cada ano que passa.
Não é só saudosismo ou apenas uma questão de amor (se é que qualquer questão de amor pode ser tratada com “apenas”...), nem frustração com o presente, com os conflitos manifestos na Tribo.
É que me assusta ver tantas pessoas falando em nome de uma Clarividente que não conheceram, sequer viram passar na frente, nem mesmo a mão ou a testa beijaram. E o mais alarmante é que dizem o que acham, o que deduziram, por conta e risco próprios, por vezes de modo tão surpreendentemente imaginativo, quanto tristemente equivocado; baseados em um acervo monumental, profícuo, impregnado de vibrações, com chaves ocultas para contatos etéricos inesperados, tão encantadores quanto perigosos.
Note-se, a doutrina de mais difícil concretização de que já tive notícia, para Helena Petrovna Blavatsky gastar (se pudesse) outras décadas analisando e, ao final, repetir a classificação de “secreta”. Eis que se torna simples conforme se eleva o padrão vibratório do seguidor, mas é labiríntica quando o padrão desaba. E quem garante o próprio padrão vibratório para daqui a pouco? Quanto mais os dos outros.
Ficamos, alguns de nós - que vimos e ouvimos – suspeitando se semeamos em campo fértil ou pregamos em um deserto vibracional, para ouvintes apenas eventualmente interessados e, mesmo assim, desconfiados e incomodados; cansados de versões e versões das mesmas verdades, nem sempre dispostos a sacrificarem as suas conveniências e comodidades admitindo que estejam no rumo errado, voltando lá atrás e começando novamente.
Lembro (até para mim mesmo) de Sísifo, personagem mitológico que os deuses teriam condenado a empurrar, sem descanso, um rochedo até ao cume de uma montanha, de onde a pedra caía de novo, em conseqüência do seu peso. Quantas aulas ainda terei de ministrar para os mesmos alunos, que fazem e continuarão fazendo o oposto do ensinado?
Perguntou-me um mestre, outro dia, “mas em quem acreditar afinal?”
Respondi: - Em você mesmo. Se mediunize, entre na sua individualidade, deixe despertar em si o sábio das 19 vidas e caminhe com as suas próprias pernas.
Ele entendeu, mas não gostou. Preferia a segurança baça de ser conduzido, à luminosidade ardente da pesquisa de erros e acertos.
Daí sentir falta de Tia, não por mim, nem para mim. Por mais perguntas que ainda tenha guardadas sem respostas, por mais falta que sinta de um afago daquela mãozinha querida, aprendi o bastante para seguir em frente, como o alquimista de Paulo Coelho, que não temia os perseguidores por saber se transformar em areia e escapar com o vento.
Queria que os meus irmãos, que vieram depois, ouvissem dela o que precisam para, também, se transformarem em areia. Não tenho tido tanto sucesso quanto gostaria nisso de acreditarem em mim. Sobra especular: - Nela acreditariam!
Ouvi de Tia, mais de uma vez, que nunca mais queria ver um Jaguar na frente, quando deixasse aquela debilitada roupagem material. Acho que era só zanga passageira de mãe cansada, com os filhos amolecados e teimosos.
Ensinaram-me, todavia, que a evolução é uma estrada, na qual todos estão caminhando, uns mais lá na frente, outros mais lá atrás. Do elítrio a Jesus, todos estamos evoluindo, eternamente. Por vezes, até as almas gêmeas se separam, quando os estágios evolutivos são muito diferentes e uma segue adiante, para conquistar o que precisa para si e para ajudar o ente querido que se deixou atrasar pelas armadilhas encarnatórias.
Consequentemente, não me parece sensato pensar que Natachan irá ficar nos confortando e protegendo para sempre. Aliás, tenho dúvidas se ela mesma é uma Jaguar. Parece que aceitou uma missão, na qual éramos as ferramentas, ela a artesã. Ou um plantio, no qual representamos as sementes, ela a semeadora (bem melhor, né?!?).
Enquanto não conseguimos lembrar das nossas asas, para voarmos, temos que usar as nossas pernas, para caminharmos, evoluirmos, seguirmos na estrada. É o lógico! Certo? Sei não...
Às vezes, vejo-nos, os jaguares, como aqueles filhotes de urso que a mãe manda subir em uma árvore, parecendo que vai até ali para voltar logo, mas some, porque está na hora das crias perceberem e acreditarem que cresceram e começarem a se virarem sozinhas.
A árvore está ficando pequena, balançando muito, mas ainda estamos agarrados nas ramas, reclamando, implicando uns com os outros, chorando, olhando em volta, procurando pela mãe. Acabamos brigando pelas poucas frutinhas que brotam, que mal nos sustentam, e nos envaidecendo com uma colméia que abraçamos, apesar das ferroadas das abelhas, apesar de todo um vasto mundo – de infinitos frutos – nos esperar disponível.
Concordando em que a missão de Tia foi concluída com sucesso (anunciar o doutrinador), é razoável e proporcional concluir que já estará envolvida em outra missão, ainda mais importante e complexa, visto nada parar, não haver descanso nos Mundos da Razão e do Amor. Seria muito esperar que tal nova missão ainda tenha algo a ver conosco? Talvez. Mas sonhar não é pecado... (?)
De toda a forma, seria legal se parássemos de dizer tanto que Tia está conosco e vai nos ajudar nisso ou naquilo. A mãe se alegra com a prosperidade dos filhos, com a capacidade deles vencerem nas vidas, resolverem os seus problemas sozinhos. A fragilidade dos filhos adultos atrai a mãe, por instinto maternal protetivo, mas a entristece por saber que falhou um tanto na formação e no amadurecimento da prole.
Deixemos Tia nos visitar, quando quiser, por prazer, por saudade, por amor, e não por não estarmos dando conta do recado e ficarmos choramingando e pedindo socorro. Deixemos que siga na sua jornada evolutiva, como precisa qualquer desencarnado. Rezemos por ela, não para ela. Agradeçamos a Deus pela grande oportunidade que nos deu, de convivermos e/ou aprendermos com uma grande iniciada. Mostremos à nossa Mãe em Cristo que assimilamos as lições, aproveitamos as chances e estamos levando a obra adiante, de onde ela deixou. Parece claro que isso sim a deixará feliz.
No próximo dia 30 de outubro, não teremos Antônio Carlos (Cayrã) concluindo mais uma semana de homenagens e lembranças vendendo flores aos que deixaram para a última hora. Não teremos Tia para abraçar. Tenhamos, então, ao menos, esperança, boa-fé e boa vontade. Se não por nós, por ela.
Salve Deus!
P.S: - Cayrã, dá um beijão na Tia por mim, tá legal...??!!
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